quinta-feira, 6 de março de 2014

i love you




Descobriram o amor quando os olhos se cruzaram em um desses bailes de carnaval. Amaram-se por quinze meses e três dias. Tempo suficiente para guardar em suas memórias detalhes pequenos dos dois. O mesmo destino que os uniram fez questão de separá-los. Eu não tenho nenhuma ligação com o romance a não ser pelo fato de ser amiga confidente de um dos lados.
Eles se amavam!
Vivenciaram cada segundo como se fosse o último. Então, posso afirmar que quando se ama intensamente vale a pena cada lágrima derramada no fim.

- Você é diferente!
- Eu?
- É, você mesmo!
- Me explique, por favor.
- Você é diferente dos outros. Você consegue ler segredos do íntimo da minha alma. Você enxerga trocentas qualidades onde vejo trilhões de defeitos. [Suspiros]. Mesmo quando eu não acreditava mais em mim você apostou todas as suas fichas.
- Você é engraçado – interrompeu.
- Posso até ser engraçado, mas você é quem me ensinou a estampar um sorriso no rosto quando eu avistava o iceberg em minha frente e tinha medo do barco afundar. Não é você quem diz: “- se está na chuva... dance?”
- É!
- Você poderia estar com outra, mas escolheu a mim. E quando o assunto é escolha você é super decidido. Ao contrário de mim que sou sempre tão bipolar. Ou tripolar? Risos.
- Bobo!
- Falo sério! A vida não teria tanto sentido se não te conhecesse. Se meus olhos não tivessem insistido em te perseguir durante todo o baile. Talvez...
- Não há talvez. Eu te amo desde aquele instante.
- Eu sabia que seria amor.
- Você fala de mim de uma forma que ninguém nunca falou. Minha mãe é todo elogio a meu respeito, mas você é diferente.
- Sua mãe? Ela tem toda razão!
Risos.
- Eu estava tentando me encontrar e estava todo errado. O certo é se perder! Não ser careta. Não ter medo de estar vivo. Ser livre para o amor.
- Você é categoricamente certo para se perder.
- Ao contrário, sou totalmente errado. Erro buscando acertar. Perco-me para me encontrar. Se não fosse assim não teria o destino nos apresentado. Vi em seus olhos que precisava de um abraço, de carinho e atenção. Não faz bem viver solitário. Aquele aperto de mão seria a chave para o nosso doce encontro.
- Pode ser.
- Agora tenho a liberdade de te falar sem nenhum tipo de medo que você é o homem que sempre procurei. Você me deixa a vontade. Não tenho medo do seu lado.
- Você sempre fala às coisas que eu gosto de ouvir. Não sou tão bom com as palavras.
- Mas nos completamos. Seus gestos e silêncio dizem muito. Gosto de você por inteiro. Se depender de mim o para sempre nunca acabará.
- Você e suas juras. Está na hora de dormir.
A luz se apaga.
- Eu te amo!
- i love you!


Descobriram enfim que o para sempre chega ao fim, mas ninguém pode culpá-los por terem se amado.



terça-feira, 4 de março de 2014

“E a gente dormir”




“Pro dia nascer feliz” lembra eu e você. Não que eu queira, nem faço questão. Mas recorda nossas madrugadas regadas a cerveja e vodka. Suas reclamações da fumaça do meu cigarro que iria invadir o apartamento. Passivo eu corria pra fumar na varanda ou debruçado na janela do quarto. Não queria te incomodar. Não queria te perder. Não queria ver sonhos meus frustrados por conta de uma porra de cigarro.
Era tudo lindo e “azul da cor do mar” como nos planos feitos por mim. E... eu... te amava. Ah, como eu pensei que te amava! Acreditava fielmente que não suportaria viver meus dias sem você para compartilhar meus medos, anseios, desejos... Eu era praticamente um habitante de Marte sem conhecer as regras de como é viver em Terra. Sonhava acordado. Hoje soa patético, mas eu me sentia bem em meio as minhas crises existenciais. Ou não?!
“E a gente dormir pro dia nascer feliz” era exatamente a vida que eu sempre quis, sonhei, planejei. Era. Hoje se mistura tais lembranças nas velhas cinza de cigarro que fumo. A mesma marca de cigarro, a mesma fumaça branca que invade meu quarto ao som de Amy Winehouse. Ah... Ela, a Amy, me lembra você. Ou melhor, me lembra. Suas dores de amor, seus porres, seus cigarros, suas letras de música que tanto parecem poemas escritos por mim. Ela sim soube traduzir tamanha sofreguidão de amor.            D o r e s   d e  a m o r .
“Pro dia nascer feliz” soa delicada e dolorosamente em meus ouvidos. Dores de amor iguais às cantadas por Maysa nas nossas madrugadas de insônia. Lendo revistas, escrevendo, revisando poemas... Um em cada canto da cama. De vez em quando eu te atormentava, mudava o foco da sua concentração. Mordia suas nádegas só pra te irritar um pouquinho enquanto você juntava as ideias para sua tese de mestrado. Ou era para ver os seus olhos nos meus?
“E agente dormir” e dormíamos na hora em que todos se levantavam para ir trabalhar. Por falar em trabalhar... Recordo-me bem do vizinho que trabalhava em uma conhecida loja. Reclamava ao telefone - vai lá saber pra quem - de nossas noites de amor. Imagino-o do outro lado munido de um copo na parede e com ouvidos bem atentos aos nossos gemidos. Ou era simples vontade de ter um alguém pra chamar de amor dia e noite, principalmente nas madrugadas?
“Só entende quem namora”. Deitado em seu peito, fitando seus olhos chorei. Como chorei. Chorei por medo. Mais uma vez eu estava tão feliz que tinha medo. A felicidade me assustava. Falei que não queria te perder. Você sorriu, enxugou minhas lágrimas, me beijou, disse que não te perderia. Disse mais: que eu era um divisor de águas. E você foi um divisor de águas em minha vida!
“Estamos por um triz pro dia nascer feliz” como naquela manhã chuvosa do dia 24 de setembro. Perdi o ônibus de volta para casa. Voltei pro seu apartamento molhado e fudido de raiva. Mas voltei a sorrir em seu colo com seus braços a me acalmar. E a gente dormiu de tarde pra noite ser mais feliz.
“O céu faz tudo ficar infinito”. Mera metáfora. O amor é escolha! Foi assim que aprendi em nossas filosofadas que sempre terminavam em sexo. Então escolhi não amar mais ou me amar mais? Você saiu para respirar ar puro eu não te acompanhei. Fiquei trancado no apartamento munido de papel e caneta. Expurguei toda minha aflição naquele caderno. Decidi, por raiva, sair pra beber um pouco e você não me acompanhou.
O dia não nasceu feliz como projetado em meus sonhos. Foi uma noite mal dormida. Você na cama, eu no col-chão. Você já sabia, pois leu meus rabiscos. Um beijo e fim.
“Agora vamô embora”.
Quando Cazuza, Ney ou Cássia cantam “Pro dia nascer feliz” tais recordações invadem minh’alma pra lembrar que houve dias felizes. Não que eu queira ou faça questão. Não é escolha. Ou é?







Desapontamento




Por do sol. Domingo qualquer de fevereiro. Apreciava o tom de laranja no horizonte. O sol escondia-se atrás das montanhas. Indo amanhecer no Japão. Possuía tudo o que queria e ao mesmo tempo nada.
Habitava um medo de enganar-se, iludir-se, de falhar... de não acontecer como esperava.
Era um desencantamento em pleno por do sol. Faltavam alguns dias para o carnaval. Seu corpo esta lá. Seus olhos avistavam o tom de cinza invadir o céu que a pouco era azulzinho. Sua mente viajava em flashesback desemfreadamente. Ora no passado ora no agora ora em um futuro incerto.
Possuía sonhos! Desejava outro rumo, outra vida, outro sentido. Não queria parecer, mas ser.
Tamanha dedicação consumia seus dias à procura da felicidade. Ou era feliz e não sabia?
Ah... sim! Havia elogios – alimento do ego.
A vida era somente aquilo: rotina.

O espetáculo do por do sol findou-se. Ascendeu o último cigarro que acabou entre os dedos sem nenhum trago. Não quis compreender, não buscou motivos. Virou-se para si fronte ao espelho. Sorriu um riso amarelo. Faltou-lhe ar.



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Croniquinha via celular




Faltavam três minutos para às duas horas da tarde. Lá estava em uma busca constante para burlar a rotina. Está aí algo que nunca gostou: ROTINA. Em toda sua vida nunca gostou da chatice de todos os dias serem milimetricamente iguaizinhos. Todo dia acordar no mesmo horário – mais cinco minutos no despertador – virar do lado e dormir – mais cinco minutinhos... quando dá por si já está completamente em atraso. Dentes. Banho. Roupa. Maquiagem. Carro. Trabalho. [Todo o período que permanece no trabalho é totalmente desnecessário ser narrado].
Todo silêncio do escritório foi interrompido naquela tarde de sexta-feira. Só para constar estava um calor infernal. Aqueles 40° de Copacabana. Calor que parece mais uma mostra grátis do inferno. A mensagem via celular era convidativa e praticamente irrecusável. Porém, no entanto, entretanto, a rotina... mais uma vez ela: a rotina. Prendeu-a em seu escritório.
- Por Deus! – exclamou em silêncio. Tanto trabalho a ser feito. Tal mensagem convidativa. O óbvio aconteceu. Ignorou a mensagem e nem se quer uma mensagem de retorno. Evitava a rotina, mas estava presa nela. O silêncio no escritório voltou a reinar. Desta vez, para burlar seus pensamentos, batucou no teclado do computador desesperadamente para concluir o mais breve seus afazeres. Em vão. 21h00min, a luz do escritório apagou...

Nota do autor: Escrita entre janeiro e fevereiro de 2014.








domingo, 10 de novembro de 2013

Relógio



Para Di Capelotti
Falta tempo?!
Ou será mesmo falta de tempo?
Ritmo acelerado contra o relógio.
Em que esquina ocorrerá
um “oi”-“abraço”-“beijo”
“até logo!”-“tchau!”?

O que nos afasta
seria o mesmo que nos aproxima?

Até parece que estamos em galáxias diferentes.
Tô aqui em um sistema todo em espiral.
Mande-me notícias da Via Láctea, por favor.

Ontem te vi passar por mim.
Você nem viu meus cabelos crescerem.
Nem percebi sua barriga crescer.

Quando te olho recordo sua fala:
- “Confio em ti! Mais que você mesmo”.

Estou sempre em movimento.
Em algum momento desacelero
pra gente se falar.

O que nos aproxima
será o mesmo que nos afasta?

Haverá tempo para dois cafés?
Um “oi” prolongado?
Diálogo? Ver fotos?
Voltar no tempo.
Faz tempo que a gente não se vê!

Se o que nos afasta é o tempo.
Que nos sobre tempo
pra gente planejar o futuro.
Que sobre um “tempinho”
para uma foto (ir parar na rede social).

Se for o tempo que nos afasta
que ele trate de nos reaproximar.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vontade de estar



Fica o gosto do beijo,
o cheiro no pescoço,
sussurros nos ouvidos,
seus olhos nos meus – na hora do amor.
Meus abraços em seus braços.
Lembranças e ainda somos os mesmos.
Questiono aos céus o motivo
de nossas vidas não começarem no altar.
Tão bom estar com você!
Acordar com você, beijar você.
Te ter por um dia ou noite.
Ficar suspirando pelos cantos.
Ainda sei de cor cada centímetro seu.
Recordo com exatidão a geografia desse corpo seu.
Em um flashback
me transporto no tempo e ao mesmo tempo
tenho a certeza que nada mudou.
Você tem esse dom
de confundir e fazer bagunça em meu coração.
Deixa todos meus passos sem direção.
É só você surgir que todas as certezas se vão.
O nunca será nunca
e me rendo outra e outra vez.
Estamos de volta ao inverno do passado
aquecendo nossos corpos
com todo fogo da paixão.
E mais uma vez,
como de outras vezes,
todas as certezas se vão.
E, fica a louca vontade de estar...


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sábado à noite


TIAGO NASCIMENTO

Abre as portas do guarda-roupa branco e desesperadamente começa a lançar todas suas blusinhas em cima da cama. “Essa não, essa não, essa não...” Decide rever todas suas blusinhas que estão amontoadas em um canto da cama. E toda indecisão invade seu ser e mais uma vez: “Essa não, essa não, essa não.” Em meio a tantas blusinhas não consegue encontrar nenhuma. Muda de ideia e decide tomar o banho. Tomando banho em uma água gelada será mais fácil tomar tamanha decisão (que blusinha sair? – Dúvida cruel!). O banheiro e chuveiro são grandes aliados para pessoas tomarem suas decisões. É na hora do banho que se acaba refletindo sobre a vida. Enfim...
Banho tomado. Calça, sandálias, colares, brincos, anéis, sutiã tudo em ordem, menos a tal blusinha. Dirige-se até a cozinha e toma um café, ascende um cigarro. Olha-se no espelho. Penteia os cabelos. Faz sua melhor maquiagem. Ainda continua na dúvida de que blusinha escolher. “Por que mulher é tão complicada assim?” – questiona-se mentalmente.
Em meio a um telefonema e outro ainda há uma incerteza difícil de decifrar. Que blusinha escolher em um sábado à noite??? Estar apresentável para todas as suas amigas ou estar mais bem vestida e bonita que suas amigas, qual seria tamanha indecisão?
[...] Lá está ela, no meio da pista, dançando, dançando, dançando livre e leve. Sem nenhum tipo de medo, sem preocupações. Vivendo o seu momento de pura distração. No meio da pista gira de um lado para o outro. De lá pra cá, de cá pra lá. Vai girando, girando... bailarina. As luzes seguem seus passos. Parece não haver mais ninguém por ali. Só há ela e seus cabelos negros. Seus olhos fixos no nada. A certeza de que viver é a melhor opção de ser feliz.
A essa altura nem se recorda mais de que passará por tamanho estressamento para decidir vestir uma regata branca justa ao seu corpo escultural. Toda aquela dúvida cruel em que blusinha vestir foi resolvida em segundos quando avistou solitariamente uma regata branca, dentro do guarda roupa, com as portas cobertas de fotografias e um pequeno espelho para que pudesse se olhar de vez em quando. E quem irá conseguir explicar certas indecisões de mulheres como ela?
Continua ela lá reinando no meio da pista. Todos os olhares estão nela. As pessoas gostam de vê-la dançar. Ela dança como ninguém. Sempre chama atenção por deslizar na pista. Talvez cansada, para um pouco, mira seu olhar ao redor... em passos lentos caminha em direção ao banheiro. Retoca sua maquiagem, reforça o batom vermelho. Pega uma cerveja e volta pra pista. Livre e solta. Não se incomoda com os olhares curiosos que a admiram dançando. Permanece ali até o baile acabar.
Conversa com suas amigas. Fala de coisas fúteis e sem compromisso, porque o que interessa é estar na companhia das amigas. Nada de assunto sério. É conversa de gente grande pra poder rir. Tudo é desculpa para estar junto de quem se gosta. Narra suas desaventuranças em busca de amores totalmente imperfeitos. Começa a gargalhar sem oferecer nenhum tipo de explicação as suas amigas que ficam olhando sem compreender nada, absolutamente nada.
Retomado o fôlego, desacreditada do que irá falar, pede desculpas pelas gargalhadas e diz: “Vocês não acreditam que passei mais de meia hora procurando uma blusinha pra poder sair e no final não a encontrei. Talvez por que a que eu queria ainda não tenho. Não sei. Sei que fiquei em uma dúvida cruel e o mais prático foi sair com essa regata que agora que eu percebi que está furada.” Sua amigas em alto e bom som: “Já tínhamos visto!”. Altos risos.


Nota do autor: Os relatos desta crônica são totalmente ilusórios, não condizem com a realidade. Porém, só há uma verdade intrinsecamente infiltrada nela. A de que enquanto eu escrevia pensava na minha amiga Drika Sant’Anna que foi estar com Deus (dois meses hoje). O café e cigarro, o corpo esbelto, os cabelos negros, o guarda-roupa coberto de fotos, as danças na Baluaê são dela. Foi a forma que encontrei de me recordar sem sentir muita dor. Só quando temos em nossa memória boas lembranças de pessoas que já nos deixaram é que a dor da saudade torna-se mais amena.